Quase três anos após o ataque a tiros que terminou com dois homens mortos e outras duas pessoas feridas na Rua Tangará, em Sorriso, o caso terá um novo capítulo na Justiça. A Terceira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) manteve a decisão que determina que Assimar Ribeiro e João Ricardo Dias sejam submetidos a julgamento pelo Tribunal do Júri.
Os dois são acusados de participação no ataque ocorrido na madrugada de 19 de novembro de 2023, por volta das 4 horas, nas proximidades da Lux Pub Radical, região que concentrava bares e pubs na Rua Tangará, em Sorriso. As vítimas fatais foram Gelson da Silva, de 39 anos, e Lucas da Silva Chagas, de 21 anos.
O caso foi acompanhado pelo JK Notícias desde as primeiras horas após o crime, quando imagens de câmeras de segurança mostraram homens armados chegando ao local e efetuando diversos disparos. Na ocasião, testemunhas relataram que os criminosos chegaram em um Toyota Corolla e abriram fogo contra pessoas que estavam na região dos estabelecimentos.
As imagens registraram correria e uma sequência de disparos. Um dos homens tentou fugir, mas foi perseguido pelos atiradores. Gelson morreu ainda no local. Lucas chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos. Outro jovem, então com 18 anos, também foi baleado e encaminhado para atendimento médico.
Mulher só descobriu que havia sido baleada horas depois
Uma das situações que mais chamaram atenção durante o atendimento à ocorrência envolveu uma jovem de 19 anos. Ela também estava na região quando ocorreu o tiroteio e foi atingida por um disparo, mas, inicialmente, não percebeu a gravidade do ferimento.
A jovem deixou o local e foi para a casa de uma amiga, onde dormiu. Somente depois de acordar e perceber que não conseguia caminhar é que foi acionado o Corpo de Bombeiros. Ela apresentava ferimento na região do quadril e foi levada ao Hospital Regional de Sorriso.
Justiça aponta possível disputa entre facções
Conforme a denúncia apresentada no processo, o ataque teria sido cometido por integrantes de um grupo denominado Tropa do Castelar, apontado como aliado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A acusação sustenta que o estabelecimento seria frequentado por pessoas relacionadas ao Comando Vermelho (CV) e que o crime teria ocorrido dentro de uma disputa entre organizações criminosas.
Essas circunstâncias fazem parte da acusação e ainda deverão ser analisadas pelo Conselho de Sentença no julgamento.
Segundo os autos, pelo menos cinco pessoas teriam participado da ação. A acusação sustenta ainda que um Corolla teria sido roubado horas antes para ser utilizado no ataque, enquanto um Fiat Mobi branco teria servido como veículo de apoio logístico.
Suspeitos foram localizados em Sapezal
Dias depois do duplo homicídio, uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) chegou até uma residência em Sapezal, onde policiais localizaram suspeitos investigados pelo crime.
Na ocasião, Assimar foi detido do lado de fora da residência, enquanto outro suspeito, identificado inicialmente pelas letras J.R., foi localizado dentro do imóvel. João Vitor Alves de Lima, de 22 anos, também apontado naquele momento como suspeito de participação no ataque, morreu durante um confronto com policiais.
Segundo o registro policial divulgado na época, João Vitor teria disparado contra os militares durante a abordagem e foi atingido após a equipe revidar. Uma pistola Glock calibre 9 mm foi apreendida.
Defesas tentaram impedir julgamento pelo júri
No andamento do processo, as defesas de Assimar Ribeiro e João Ricardo Dias recorreram da decisão da 1ª Vara Criminal de Sorriso que havia determinado que eles fossem levados a júri.
Entre os argumentos apresentados estavam a alegação de insuficiência de provas e pedidos para retirada das qualificadoras de motivo torpe, perigo comum e recurso que teria dificultado a defesa das vítimas. A defesa de João Ricardo também sustentou que ele estaria em Sapezal no momento do crime.
A Terceira Câmara Criminal do TJMT, entretanto, rejeitou os argumentos por unanimidade. Para os desembargadores, existem provas da materialidade dos crimes e indícios suficientes de autoria para que o caso seja analisado pelo Tribunal do Júri.
Entre os elementos citados no processo estão imagens de câmeras do programa Vigia Mais MT, informações sobre o deslocamento do Fiat Mobi branco apontado como veículo de apoio e depoimentos de testemunhas.
O relator do recurso, desembargador Gilberto Giraldelli, entendeu que as controvérsias sobre a participação de cada acusado deverão ser analisadas pelos jurados.
Além de manter a decisão de pronúncia, o Tribunal manteve as qualificadoras e a prisão preventiva dos acusados. Eles deverão responder perante o Tribunal do Júri por acusações relacionadas a homicídios qualificados e integração em organização criminosa armada.
Júri decidirá se acusados são culpados
A decisão de pronúncia não representa uma condenação. Nesta fase, a Justiça reconhece apenas que existem elementos suficientes para encaminhar a acusação ao Tribunal do Júri.
Caberá aos jurados analisar as provas apresentadas pela acusação e pelas defesas e decidir sobre a responsabilidade criminal dos réus.
Até a publicação desta matéria, a data da sessão do Tribunal do Júri não havia sido informada.
