Para a safra 2025/2026, as projeções seguem otimistas. Levantamentos do Imea no início de 2026 apontavam produtividade da soja mato-grossense em torno de 64,73 sacas por hectare, um patamar 7% superior ao da safra anterior, com o estado projetando nova safra recorde de mais de 50 milhões de toneladas. Mato Grosso, hoje, é responsável por cerca de 32% de toda a produção brasileira de grãos, tendo superado a marca de 111,9 milhões de toneladas na safra 2024/25 (fonte: Imea). Sorriso, dentro desse cenário, também se destaca no comércio exterior: o município figura como a 19ª maior cidade exportadora do Brasil, com vendas externas superiores a US$ 2,6 bilhões por ano (fonte: Agro Nortão/Imea).
O papel da tecnologia e da irrigação
Se a fama de Sorriso é sinônimo de soja e milho a perder de vista, uma das transformações menos visíveis, mas talvez mais decisivas, dos últimos anos tem sido a corrida por tecnologia e mitigação de riscos climáticos. O município se tornou um polo de agricultura irrigada no Médio Norte de Mato Grosso: atualmente, a cidade conta com 523 propriedades e 672 pivôs de irrigação instalados, cobrindo quase 90 mil hectares, o equivalente a 52% de toda a área irrigada do estado (fonte: Dinheiro Rural). Para especialistas do setor, essa infraestrutura tem sido essencial para reduzir a vulnerabilidade da produção diante de veranicos e da irregularidade das chuvas, um risco cada vez mais presente com as mudanças no regime climático.
Some-se a isso o avanço da agricultura de precisão, uso de sensores, imagens de satélite, pulverização guiada por GPS e maquinário cada vez mais automatizado, que passou a ser tratado pelos próprios produtores locais como pré-requisito, e não mais diferencial competitivo. Como resume um agricultor da região em depoimento a veículos especializados no setor, o parque de máquinas modernas de hoje permite que produtor e agrônomo acompanhem em tempo real o que acontece na lavoura, otimizando insumos e reduzindo desperdício, um salto e tanto para uma região que, há cinco décadas, era coberta por cerrado nativo e picadas de mato.
O gargalo que ainda trava o campo: a logística
Nem tudo, porém, são recordes. O maior entrave enfrentado pelos produtores de Sorriso e por boa parte do agronegócio do Centro-Oeste brasileiro é a logística de escoamento. A distância até os portos de exportação, somada à insuficiência da malha ferroviária e às condições das rodovias, encarece o frete e reduz a margem de lucro dos produtores, mesmo diante de colheitas recordes.
O prefeito de Sorriso, Alei Fernandes, já apontou publicamente a questão logística como um dos principais desafios da gestão municipal, defendendo a modernização e ampliação da malha ferroviária e a pavimentação de rodovias como prioridades para destravar o potencial da região. A pauta também mobiliza entidades de classe: segundo o Sindicato Rural do município, Sorriso é a cidade que mais arrecada no estado o Fundo de Transporte e Habitação (Fethab), tributo cobrado sobre a movimentação de grãos justamente para financiar obras de infraestrutura, a arrecadação do fundo superou R$ 310 milhões só em 2023 (fonte: Sindicato Rural de Sorriso, à Canal Rural).
O tema ganhou ainda mais visibilidade em 2026, quando Sorriso sediou, pela primeira vez em Mato Grosso, o Global Agribusiness Festival (GAFFFF), evento internacional que reuniu participantes de cinco países Brasil, Argentina, Espanha, Guatemala e Reino Unido para debater os principais entraves à competitividade do setor. Segundo a organização do evento, a expansão da produção agropecuária ocorre em meio a um cenário de mudanças nas relações comerciais, gargalos de infraestrutura, necessidade de investimentos e avanço acelerado da tecnologia (fonte: Canal Rural Mato Grosso), fatores que devem seguir no centro do debate nos próximos anos. Entre os painéis do evento estavam temas como corredores logísticos, parcerias público-privadas e o futuro do escoamento agrícola brasileiro, sinal de que o problema, longe de ser exclusivo de Sorriso, é estrutural para todo o agro nacional.
Depender menos da soja: o próximo desafio
Paradoxalmente, o maior risco para uma cidade que é sinônimo de sucesso agrícola é justamente a dependência excessiva de poucas commodities. Cientes disso, gestores públicos e lideranças do setor produtivo de Sorriso têm defendido, nos últimos anos, um movimento de diversificação da economia local, com foco em dois eixos: o fortalecimento da agricultura familiar e o incentivo à industrialização, ou seja, agregar valor ao que já é produzido em grande escala, em vez de apenas exportar a matéria-prima.
Na visão do próprio prefeito Alei Fernandes, o agronegócio de Sorriso “já se consolidou” e o momento agora é de desenvolver outras cadeias produtivas, com a industrialização como prioridade, de forma a permitir que o município arrecade mais a partir do valor agregado de sua produção e não apenas do volume bruto colhido. A ideia é reduzir a exposição da economia local às oscilações de preços internacionais de commodities como a soja, que, apesar do crescimento em volume, teve seu preço médio reduzido em mais de 4% em um intervalo de 12 meses recentes, limitando o avanço da receita mesmo em anos de safra recorde.
Uma capital do agro que também é uma cidade jovem
Por trás dos números bilionários, Sorriso também é uma cidade que cresceu rápido e segue atraindo gente de todo o Brasil. Formada majoritariamente por migrantes vindos do Sul e do Nordeste do país, a cidade hoje ostenta índices de desenvolvimento humano e educação considerados elevados para os padrões regionais, com uma rede de ensino superior que inclui faculdades e polos de universidades estaduais e federais reflexo direto da necessidade de qualificar mão de obra para um agronegócio cada vez mais dependente de tecnologia, dados e gestão.
A cultura local, moldada pela mistura de influências gaúchas, catarinenses e nordestinas, também virou parte da identidade da cidade, que organiza anualmente feiras e eventos voltados à inovação e à cultura do agro, um lembrete de que, por trás de cada saca de soja embarcada rumo aos portos, existe uma comunidade inteira que se organizou, em menos de cinquenta anos, para transformar cerrado em uma das regiões mais produtivas do planeta.
Fonte: Revista Notícia
Autor: Paulo Ricardo Kryszczun
